COMO EU VEJO A MINHA TIA DA CATEQUESE HOJE?

Ontem um parente me contatou. Sem querer e sem nenhuma intenção, eu mencionei um curso religioso que estou fazendo. É um curso complicado, pesado, que exige muita dedicação. Hoje esse mesmo parente me disse que começou o curso também. Ele parecia muito entusiasmado.

Eu lembrei que já participei, durante 11 anos, da Seicho-No-Ie (SNI). Comparativamente com os meus estudos atuais, a SNI é uma religião muito mais simples, com muito menos exigências. Acho que eu nunca consegui “converter” ninguém para SNI. Não me lembro de ninguém a quem eu apresentei a SNI que esteja lá até hoje. Algumas pessoas aceitaram meu convite, participaram de alguns eventos, mas ninguém aceitou fazer um curso tão pesado como este que meu parente começou. Aliás, a SNI nem tem cursos assim. Fiquei pensando que, na verdade, a gente não faz nada. Quando alguém está pronto, a oportunidade surge e a pessoa agarra essa oportunidade. Às vezes, a gente tem a sorte de ser o mensageiro dessa oportunidade, só isso.

Pouca gente sabe disso, mas eu fiz Primeira Comunhão. Por quê? Foi o que eu perguntei na época. Eu acho que eu era bem precoce para uma menina de 9 anos. Minha mãe disse que eu tinha que fazer Primeira Comunhão por causa dos vizinhos, da sociedade. Meu pai deu uma explicação “romântica” que eu nunca entendi direito, ele falou que, se um dia eu quisesse me casar com um católico, eu não teria que fazer Primeira Comunhão depois de adulta. Eu argumentei com ele já na época. Parecia um futuro tão absurdo e abstrato dizer que, algum dia, iria casar com um católico e, por causa disso, eu teria que fazer Primeira Comunhão, para uma menina de 9 anos. Só isso. Não era nem para me tornar católica de fato. Era só ir lá na catequese aos domingos.

Normalmente as crianças vão durante um ano às aulas de catequese. Eu fui durante três anos. Acho que as minhas eram no sábado de manhã, não tenho certeza. Eu reprovei duas vezes por causa do número de faltas. Ou não saía de casa no horário ou ia para outro lugar e não aparecia lá. Algumas vezes, eu apanhei por causa disso. Não foram muitas. Eu sempre gostei de dramatizar essa história de “eu apanhava para ser católica”. Devo ter apanhado uma meia dúzia de vezes só.

No terceiro ano, aconteceu uma coisa que me marcou. Eu estava lá, sentada na aula de catequese, quando a tia disse algo como D”us serem três: Pai, Filho e Espírito Santo. Eu lembro que eu levantei a cabeça, olhei para ela e pensei: “Mas você, além de tudo é muito burra mesmo. É lógico que D”us é Um. Com certeza, você entendeu errada o que o padre falou. Sua burra!”, abaixei a cabeça e continuei quieta. Ainda bem que eu continuei quieta e aquele sofrimento acabou aquele ano.

Dez anos depois, eu estava almoçando na faculdade quando um colega judeu me perguntou: “O que você acha da Trindade?”. A minha resposta foi: “Quê Trindade?”. “A Trindade, aquilo que os católicos acreditam, que D”us é Três, Pai, Filho e Espírito Santo, o sinal da cruz...”. E eu fiquei chocada escutando que não era a minha tia da catequese que era burra demais. A Igreja Católica realmente pregava que D”us eram três. Descobri isso aos vinte e poucos anos.

Mais tarde ainda, ouvi falar de um homem (de cerca de trinta anos), que se dizia ateu, porque quando ele fez catequese, a tia contou a história de Moisés e povo judeu durante quarenta anos no deserto. Ele tinha uns 8 ou 9 anos e disse algo como “Então D”us é mau para fazer essas pessoas sofrerem tanto no deserto”. A tia deu um tapa nele por dizer que D”us era mau e chamou os pais dele. Em casa, ele tomou uma surra dos pais. Essa era a razão que ele dava para ser ateu. Quando eu escutei essa história de um terceiro eu comentei: “E esse cara acha que a tia da catequese dele era Santa Teresa de Ávila, a Doutora da Igreja! Por que, invés de desacreditar em D”us, que é algo muito mais complexo e fascinante, ele não percebeu que a tia e os pais dele eram simplesmente uma cambada de idiotas?”.

Eu tenho pouco contato com crianças, mas eu imagino que deve ser fácil explicar para um menino de 9 anos que “Não, D”us não é mau, Ele é imensamente bondoso, Ele fez isso por causa disso e daquilo”. Uma criança de 9 anos, normalmente, não tem nem vocabulário nem conhecimento para fazer uma pergunta teologicamente profunda. Uma educadora que se desequilibrava com uma pergunta assim, não tinha o mínimo preparo para educar em religião nenhuma.

Orgulho e presunção quase nunca são uma coisa boa. Mas, nesse caso específico, meu orgulho me salvou de passar por situações muito mais problemáticas. Aos 12 anos, fazendo aquilo pela terceira vez, eu simplesmente assumi que a tia era muito burra, que eu era mais inteligente que ela, fiquei calada e deixei rolar. Depois eu disse que não faria a Crisma e minha família aceitou.

Eu compartilho essas histórias sem a objetivo de defender uma ou outra ideia. São apenas minhas vivências. Até agora, o que eu aprendi é que não adianta bater em crianças para fazer com que elas adotem essa ou aquela religião. Crianças, assim como adultos, querem se sentir amadas e acolhidas. Parece muito mais fácil convencer uma criança com balas, brincadeiras, integração do que com tapas. Até hoje, eu não conheço ninguém que apanhou para se converter e, quando adulto, continuou seguindo aquela religião. Mas esses relatos são de pessoas que foram crianças no final da década de 80 ou no começo de 90. O mundo já mudou (espero).

Outro aprendizado que eu tiro é que o interesse por alguma religião ou assunto, é algo que vem de dentro da pessoa. É uma construção interna. No máximo, a gente consegue ser uma porta de apresentação. Mas o desejo sincero vem de dentro da pessoa. Meu parente estava preparado para isso e foi.

Por último, o orgulho atrapalha o aprendizado e conhecimento da realidade. Se eu não fosse orgulhosa, eu teria aprendido muito antes que os católicos acreditam na Trindade. Portanto, seria mais sábia mais rapidamente. Era pedir muito para o meu eu criança daquela época, mas o modo mais sábio de lidar com aquela situação seria ter desenvolvido a minha compaixão por aquela tia. Talvez ela tivesse sonhos que não foram realizados. Ela pode ter tido dificuldades para estudar. Pode não ter tido uma boa vida. Mesmo assim, ela estava lá, voluntariamente tentando dar o melhor dela para aquelas crianças. Até hoje eu acho que a tia acreditava e estava fazendo, era uma grande bobagem. Mas ela era humana assim como eu e todos nós. Como é fácil esquecer disso.

Muito obrigada pela oportunidade de compartilhar essas histórias.

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