EFIGÊNIA DA ETIÓPIA: MULHER, NEGRA, PODEROSA E SANTA (CONTROVERSA!)

Estava passando pela região de Santa Ifigênia na cidade de São Paulo, na companhia de amigos e pesquisadores estrangeiros. Um deles era grego, isto é, cuja religião de origem é (católica) ortodoxa grega. Ele reconheceu o nome Ifigênia, disse que era grego, mas que se tratava de uma lenda muito popular na Grécia, mas apenas uma lenda. Para a Igreja Ortodoxa Grega, Santa Ifigênia não é santa, nem nunca nem existiu.
Não sou católica (de nenhuma denominação), mas histórias de mulheres que são adoradas (até como santas) e odiadas (ao ponto de sua existência ser negada) atiçam minha curiosidade. Eu fui procurar...
 
Viaduto Santa Ifigênia, na cidade de São Paulo.  Imagem retirada da Wikipédia.
Segundo o site católico Cruz Terra Santa, pode-se escrever Santa Ifigênia ou Santa Efigênia, seu nome significa, em grego, “nascida forte” (força é um atributo normalmente pouco atribuído a mulheres). Ela era uma princesa do Reino da Núbia, onde hoje é a Etiópia. Portanto, sem sombra de dúvidas ou contestação, ela era negra. Uma personagem que era mulher, negra, rica, forte, poderosa, que, ainda por cima, virou santa.
Imagem de Santa Ifigênia, esculpida em madeira, em Minas Gerais, no século XVIII.
Atualmente esta imagem está exposta no Museu Afro Brasil (Parque do Ibirapuera, São Paulo).
Fonte: Wikipédia em inglês

EFIGÊNIA DE ETIÓPIA E MATEUS, O EVANGELISTA
Efigênia da Etiópia (é assim que a Wikipédia em inglês a chama) foi convertida ao Cristianismo pelo apóstolo (São) Mateus, o evangelista. Oito anos depois da Ascensão de Jesus, Mateus partiu com dois discípulos para Noba, capital da Núbia. Lá eles foram mal recebidos e mal compreendidos pelos locais, que professavam o paganismo, exceto por Ifigênia que aceitou Jesus e se converteu.
Os sacerdotes locais eram muito poderosos e convenceram o rei que os deuses estavam enfurecidos com aquela pregação. Para apaziguar a ira dos deuses, era necessário queimar Ifigênia viva em sacrifício. Por aí, se vê que queimar mulheres contestadoras é um costume muito antigo. Ifigênia da Etiópia aceitou o seu martírio, mas foi salva miraculosamente por um anjo. Após esse milagre, muitas pessoas (inclusive seu pai, sua mãe e seu irmão) se converteram ao Cristianismo.
Ifigênia teve um chamado para reunir um exército de mulheres para vida religiosa e assim o fez. Talvez criando um dos primeiros conventos da História do Cristianismo. Quando seu pai morreu, Ifigênia enfrentou mais provações. Seu tio assassinou seu irmão para ficar com o trono. Além disso, seu tio disse a Mateus (o evangelista) que daria metade do reino a ele, se Mateus obrigasse Ifigênia a casar com o tio (provavelmente para legitimar seu poder real). Mateus se recusou a fazer isso (ou seja, distorcer a palavra de Cristo) e foi morto por causa disso.
Após a execução de São Mateus, o rei mandou pôr fogo no convento de Ifigênia. Mas o fogo se transferiu para o seu palácio o matando, enquanto Santa Ifigênia e suas discípulas conseguiram fugir e se salvaram.

O RECONHECIMENTO (OU NÃO) DE EFIGÊNIA COMO SANTA
A Igreja Católica Romana celebra Santa Ifigênia no dia 21 de setembro. Ela é considerada uma santa protetora contra incêndios, padroeira dos militares e auxiliadora daqueles que almejam sua casa própria. Sua devoção é popular no Brasil, no Peru e na França. No nosso país, destaca-se a Matriz de Santa Ifigênia em Ouro Preto, Minas Gerais, que foi esculpida por Aleijadinho e representa um ícone do Barroco Mineiro, além de expressivos elementos simbólicos da cultura negra.
Igreja Matriz de Santa Ifigênia, Ouro Preto, Minas Gerais.

A Igreja Católica Anglicana (isto é, de origem inglesa) também reconhece Santa Ifigênia como santa. A maioria das Igrejas Ortodoxas da Synaxaria não reconhecem Ifigênia como santa, embora, em alguns escritos, admitam que São Mateus esteve, de fato, na Etiópia. No Brasil, nós chamamos todos os membros das igrejas da Synaxaria de “católicos ortodoxos”, mas, até agora, todos os que eu conheci (tanto russos como gregos) não gostam de serem chamados de “católicos”, preferem apenas “ortodoxos”. Existem muitas igrejas diferentes (inclusive com diferentes “papas”, que eles chamam de “patriarcas”) debaixo do que nós chamamos “católicos ortodoxos” (a Synaxaria). Inclusive, existem as igrejas ortodoxas orientais, como a copta no Egito, que não reconhece Santa Ifigênia e nem que São Mateus esteve na Etiópia.

MATEUS E SIMÃO CIRINEU: OUTRO SANTO NEGRO ESQUECIDO?
Segundo as explicações da versão da Bíblia que estou lendo (que é Protestante), Mateus, também chamado Levi, era um cobrador de impostos que se tornou apóstolo. Acredita-se que o Evangelho foi escrito os anos 37-40 d. C. Ou seja, imediatamente antes da partida para a Etiópia. Provavelmente foi escrito na Judéia, seu público alvo são os judeus em geral, fato evidenciado por não existirem explicações para leitores não judeus.
Mateus 27:32 descreve a caminhada até a crucificação: Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, de nome Simão; a este obrigaram a carregar-Lhe a cruz.” As notas explicativas elucidam: “Cirene era uma cidade colonial grega, capital da Cirenaica, no norte da África. Parece que Simão era um judeu cireneu.”. Portanto, é plausível crer que ele fosse negro. Provavelmente inclusive Mateus, o evangelhista, também fosse.
Marcos 15:21 descreve o mesmo episódio: “E obrigaram certo Simão, cireneu, que passava, vindo do campo, pai de Alexandre e de Rufo, a carregar-lhe a cruz.”. Não há notas explicativas sobre quem foram Alexandre e Rufo. Acredita-se que o Evangelho de Marcos foi ditado pelo apóstolo Pedro entre os anos de 67 e 70 d. C.
Os Evangelhos de Lucas e de João não descrevem este episódio. Segundo as mesmas notas explicativas, o Evangelho de Lucas foi provavelmente escrito em 60 d. C. e ditado por Paulo, que não presenciou o episódio da crucificação. O Evangelho de João foi escrito em 90 d. C., o que significa que o apóstolo João teria talvez mais de 100 anos quando o escreveu. É possível acreditar nisso por um ato de fé, mas, sendo mais racional, é altamente provável que sua autoria seja apenas atribuída a João.
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