O QUE FAZER QUANDO UM AMIGO TE RECOMENDA UM LIVRO RACISTA? - CONSIDERAÇÕES SOBRE O DIA DO ÍNDIO


20 de abril de 2019. Estou escrevendo no Sábado de Aleluia, porque amanhã é Domingo de Páscoa e acho que não vou ter tempo para escrever ou que o clima da data é diferente do que eu quero escrever sobre.
Eu tinha a intenção de escrever, como em anos anteriores, sobre o Dia do Índio (19 de abril) e os indígenas na literatura (relembre o vídeo clicando aqui). Em inglês, a gente, preferencialmente, se refere aos indígenas como Native Americans (nativos americanos). Essa é considerada a forma menos ofensiva naquele idioma e vou adotá-la também em português neste texto.

O QUE EU APRENDI DE NOVO DESDE DE 19 DE ABRIL DE 2018
Do vídeo do ano passado para este ano, aprendi três referências novas sobre o tema:
Primeiro também existem reservas para nativos americanos e parece que eu posso pedir para visita-las quando eu estiver lá e conversar com os locais. Espero que eu consiga fazer isso quando estiver no Canadá. O país tem uma História que eles consideram “negra” de exploração do trabalho indígena infantil e violência cultural. Se quiser saber mais, confira a notícia que o jornal The Guardian fez sobre isso clicando aqui (em inglês).
Segundo foi o jogo Never alone (Nunca Sozinha), baseado na cultura dos nativos do Alaska (Estados Unidos). Uma menininha nativa (com ajuda de uma raposa) precisa salvar sua aldeia de uma nevasca. Segue o vídeo do trailer do jogo abaixo:


Terceiro foi saber sobre o livro Parteiras de um Povo: 65 anos de presença das irmãzinhas de Jesus junto ao povo de Apyãwa-Tapirapé da Eliane Remy. Ainda não tive acesso ao livro, mas seu lançamento foi reportado em vários sites, entre eles o site de notícias da BBC (British Broadcasting Corporation, ou, em português, Corporação Britânica de Radiodifusão). Segundo essa reportagem (clique aqui para lê-la na íntegra, vale muito a pena), as irmãs chegaram na aldeia dessa povo no começo da década de 50, no nordeste de Mato Grosso. Elas ajudaram a fazer partos, procurar ajuda média e vacinar várias crianças, salvando a tribo da extinção. O mais fascinante disso tudo é que elas respeitaram a cultura nativa e não tentaram converter os locais ao cristianismo. A convivência entre as duas culturas sempre foi pacífica e respeitosa.

Entrou para a lista de leitura.

POR QUE LUTAR POR IDEAIS DE IGUALDADE AINDA FAZ SENTIDO?

Paralelamente a isso, estou lendo o livro Consciência Cósmica de Richard Maurice Bucke. Esse livro fazia parte das minhas metas de leitura do ano passado, quando pedi que amigos determinassem o que eu iria ler. O amigo que me recomendou Consciência Cósmica fez tanta questão que eu lesse, que até me trouxe o livro pessoalmente do Rio de Janeiro. A obra tem 453 páginas e eu já li 110.

A VIDA DO AUTOR E O TRATAMENTO DE DOENÇAS MENTAIS NO CANADÁ DA ÉPOCA

Richard Maurice Bucke era um médico canadense (1837 – 1902). Ele foi um aventureiro na juventude, peregrinando pelo Velho Oeste norte americano. Mais tarde, ele retornou ao Canadá, onde estudou Medicina e Psiquiatria. Ele foi chefe do Asylum for the Insane (asilo para doentes mentais) na cidade de London, Canadá (próxima de Toronto). Esse local ainda existe. Alguns prédios do complexo foram destruídos, outros estão abandonados, mas podem ser visitados.
Achei um blog (Explorarion Project) que apresenta lugares poucos conhecidos (mas importantes) na Província de Ontario no Canadá. Esse blog tem um post só sobre o Asylum for the Insane (clique aqui para ler em inglês). O texto é muito crítico sobre o Dr. Bucke (autor do livro que estou lendo). Segue a passagem em tradução livre:
Infelizmente, os cuidados de saúde mental na época também incluíam algumas práticas horripilantes”.
Isso lembro o texto sobre o hospital psiquiátrico de Barbacena, Minas Gerais, que foi um dos textos de mais sucesso deste blog (relembre clicando aqui). E o texto sobre o Asylum for the Insane segue:
Durante seu tempo como superintendente (1877-1902), o Dr. Bucke acreditava que a insanidade estava relacionada com os males do corpo. Para algumas mulheres, ele acreditava que problemas com seus órgãos reprodutivos causavam "histeria". Portanto, ele fazia histerectomias (i.e., remoções cirúrgicas do útero e ovários) regulares em pacientes do sexo feminino até sua morte em 1902. O Dr. Bucke também acreditava que a insanidade estava relacionada à masturbação. Pacientes do sexo masculino seriam submetidos à disciplina física e restrições mecânicas para controlar suas tendências de masturbação. Se isso falhasse, o Dr. Bucke colocaria cirurgicamente um anel de arame no prepúcio do pênis de um paciente do sexo masculino. Isso causaria dor ou lesão durante a masturbação. Se o paciente parasse de se masturbar, o anel seria removido.

AS IDEIAS DO LIVRO SOBRE OS NATIVOS AMERICANOS

Não dá para ter certeza sobre quando o livro Consciência Cósmica foi escrito. A edição que tenho em mãos consta como traduzida para o português em 1996, em primeira edição. Na dedicatória da primeira edição, há uma data de 1900 e uma dedicatória a um filho falecido do autor. Posso assumir que o livro foi escrito nos últimos anos de vida do autor, que morreu em 1902.
Das 110 páginas que li, não sei se escrevo realmente o que achei e corro o risco de perder uma amizade de mais de 20 anos...Vou acabar escrevendo e correndo esse risco. Espero que meu amigo entenda.
A primeira questão que me desagradou foi o ataque aos nativos americanos. Seguem algumas citações, começando pelas páginas 72, 73 e 74:
O ser humano primitivo de que descendemos ainda tem na Terra, nos dias atuais, dois representantes: primeiro, o silvícola (i.e., o indígena, o nativo); segundo, a criança.
As características da mente do silvícola e da criança nos darão, quando encontradas, as características da mente humana primeva de que descendeu a mente moderna comum que conhecemos, bem como as mentes excepcionais dos grandes homens da história contemporânea.
As principais diferenças entre a mente primitiva (a infantil e a silvícola) de um lado, e a mente civilizada de outro, estão em que a primeira (chamada para sermos breves, de mente inferior) é deficiente em força pessoal, coragem, ou fé; ou também em compaixão, ou afeto, e é mais facilmente provocada ao terror ou à raiva do que a segunda mente, a civilizada.
É certo que suas afeições de família (como no caso dos silvícolas inferiores de hoje) eram, para dizer o mínimo, rudimentares, e que todos os homens fora de sua família imediata eram temidos ou antipatizados, ou ambas as coisas.
Achei essas passagens um “show de horrores”. O fato de que um homem canadense escreveu isso no ano de 1900 não me surpreende. Mas o fato de que vários brasileiros se deram ao trabalho de traduzir, publicar e ler uma obra dessas, em 1996, me choca. Por que é tão difícil entender que os nativos americanos são apenas pessoas como qualquer outra? Se eles tiverem acesso à educação e oportunidades, eles irão se desenvolver como qualquer outra pessoa.

Leitura obrigatória.

Essas passagens me fizeram pensar em dois livros para contrapor essa visão: Índios do Brasil de Júlio Cezar Melatti e Rondon de Todd A. Diacon. O primeiro, na minha visão, é um livro didático e deveria ser estudado no ensino médio das escolas brasileiras. Em um dos últimos capítulos, o autor escreve sobre a imagem que os nativos americanos fazem dos não nativos e vice-versa, as imagens que nós construímos sobre os nativos americanos. Uma dessas imagens é a de que o nativo americano seria uma mente infantil, igual a uma criança. Essa visão também era adotada por Rodon, devida a sua crença no Positivismo (que muito influenciou o Exército brasileiro). Isso pode ser constatado no livro do historiador norte-americano Todd A. Diacon.

Leitura interessante.

É lógico que o “show de horrores” não termina nessas três passagens do Dr. Bucke. Na página 79, pode-se ler:
Deve no entanto haver muitos membros de espécies inferiores, tais como os bosquímanos sul-africanos e os nativos da Austrália, que nunca alcançaram essa faculdade (autoconsciência).”
Essa passagem me fez lembrar do livro As Origens do Totalitarismo da filósofa Hannah Arendt. Em uma determinada passagem, a autora investiga as origens do racismo. Ela toma como exemplo a África do Sul e afirma que os primeiros brancos (de origem holandesa e chamados de boêres) haviam se tornado como os nativos (chamados de bosquímanos pelo Dr. Bucke), adotado seu estilo de vida e que, portanto, o racismo sul-africano vinha de uma competição por terras e recursos. Deve ter doído nos racistas sul-africanos ler, no livro de Hannah Arendt, que eles eram iguais aos negros locais. O Dr. Bucke, na passagem acima, afirma que os negros não são nem gente.

Leitura obrigatória.

E o “show de horrores” do Dr. Bucke não pára. Na página 82, há uma assertiva falsa sobre portadores de doenças mentais. Na página 87, há uma menção sobre a superioridade da “raça ariana”. Na página 89, existe uma alegação cientificamente comprovada como falsa sobre doenças mentais entre negros. Na página 95, há uma alegação sobre a superioridade de homens sobre as mulheres (na verdade, há duas passagens nesse sentido, mas eu sou marquei essa). Não vou rebatê-las nesse post, porque a minha intenção era escrever apenas sobre o Dia do Índio. Mas vou escrever algo a respeito quando eu terminar de ler o livro. Sinceramente, esse livro me fez lembrar que Hitler era um "erudito", que tinha uma biblioteca com várias obras. Eu apostaria, com muita certeza, que Hitler gostaria de ter lido este livro (se é que ele não leu).
Um dia senti que um colega estava me criticando (um pouco indiretamente) porque eu escrevo sobre mulheres negras na literatura, mas eu não sou negra. Então, está bem. Mas, pelo menos, descendente de índios (caiapós), eu sou. É horripilante pensar que as ideias do Dr. Bucke ainda são difundidas até hoje. Para mim, os preconceitos devem ser combatidos de uma forma geral e não de uma forma departamentalizada. 

Os preconceitos são pensamentos limitantes que cerceiam a nossa vida. Sou descendentes de judeus (os chamados cristãos-novos, as primeiras pessoas não nativas que chegaram ao Brasil) e de nativos americanos. Sinceramente eu gostaria que as crianças tivessem que estudar na escola sobre a perseguição que os judeus sofreram durante a Inquisição no Brasil e eu não me ofenderia se esse fosse um tema tão comum que eu lesse uma blogueira afro brasileira escrevendo sobre ele também. Para falar a verdade, sei lá se os judeus também não são negros... Afinal, um fato que a gente esquece é que, sim, o Oriente Médio também fica na África. Se eu escrevi algo inapropriado sobre a cultura afro-brasileira, por favor, me corrijam nos comentários.

ATUALIZAÇÕES DO BLOG

Quero aproveitar esse final de post, para dizer a vocês que atualizei a aba “+ Mulheres” com a lista de obras relevantes escritas por mulheres (excluídas aquelas que já ganharam o Nobel ou pertencem à Academia Brasileira de Letras, essas têm abas específicas). Até o momento, temos 128 obras. Ainda é bem menos do que os, pelo menos, 600 que eu quero chegar. Se vocês notarem a falta de alguma, por favor, deixem nos comentários. Clique aqui para conferir mais.
Muito obrigada a você que acompanha o nosso trabalho. Por favor, fique à vontade para deixar seus comentários. Também é possível acompanhar as novidades pela nossa página no Facebook.

BOA SEMANA!

BOAS LEITURAS!

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